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O custo escondido de trocar de BaaS

A cena se repete em quase toda fintech brasileira que ajudei a olhar nos últimos dois anos. CFO insatisfeito, time de produto irritado, founder com a mão na cabeça olhando o último incidente do provider. Alguém na sala fala “vamos trocar de BaaS”. Todo mundo concorda. Vira tarefa. Vira projeto. Seis meses depois, a empresa continua no mesmo provider.

Não é falta de vontade. Não é falta de alternativa. Tem 867 instituições ativas no Pix segundo o Banco Central, e o mercado de BaaS brasileiro deve ultrapassar US$ 18 bilhões até 2030 segundo a GlobalData. Falta provider não é. O que falta é a empresa entender o que ela está realmente comprando quando contrata um provider de banking.

O preço é o problema bobo

Quando alguém diz que vai trocar de BaaS, a primeira coisa que faz é abrir uma planilha comparativa. Tarifa de Pix, MDR, taxa de manutenção de conta, fee de antifraude. Compara três providers, faz a conta, descobre que o novo é 22% mais barato. Pronto, decisão tomada.

Aí começa o segundo levantamento. E o preço some da conversa.

Porque preço é a parte pequena do custo de troca. Em quase todo deal que olhei, o preço do provider representa entre 8% e 15% do TCO real de um produto bancário rodando dentro da empresa. Os outros 85% estão em outro lugar, e é nesse outro lugar que a migração trava.

O custo escondido número um: integrações que viraram acoplamento

Quando você integra um BaaS pela primeira vez, sua engenharia faz isso em três meses. Quando você tenta trocar, descobre que aquela integração de três meses virou raiz. Cresceu junto com o produto. Webhook do provider chamando endpoint seu que dispara fluxo seu que envia notificação por canal próprio, mas a notificação carrega ID gerado pelo provider, que outro serviço seu usa pra fazer matching, que o time de financeiro usa pra conciliar.

A integração virou acoplamento. Trocar de provider deixa de ser projeto de TI e vira refatoração de produto. Com um detalhe a mais: a refatoração não traz feature nova pro cliente. Ela só recoloca a casa de pé pra ficar igual ao que estava antes.

O custo escondido número dois: conhecimento de operação

Esse é o que mais subestimam. Quando um BaaS está rodando há dois ou três anos dentro da operação, ele acumulou conhecimento que nem está no contrato. Aprendeu padrão de fraude do seu cliente, tem score calibrado em cima do seu histórico, tem regra de antimoney laundering ajustada pro seu setor, conhece o ritmo de transação da sua base.

Quando você troca, esse conhecimento volta a zero. O provider novo tem boa tecnologia, mas opera no escuro com seus clientes. Os primeiros seis meses são turbulentos: chargeback aumenta, KYC barra cliente bom, score sobe falso positivo. Você sabia que isso ia acontecer no abstrato. Vai sentir na fatura mesmo assim.

O custo escondido número três: contratos amarrados

Esse aqui pega founder despreparado. Sua fintech tem contrato com cliente B2B grande. O contrato menciona split de pagamento de um jeito específico, ou tem cláusula de SLA, ou descreve fluxo de onboarding que foi desenhado em cima do que o BaaS atual faz. Trocar o provider quebra o contrato. Não juridicamente, operacionalmente. E renegociar contrato com cliente grande pra dizer “vamos mudar de provider lá embaixo” é conversa que CFO de fintech foge.

Em três das cinco fintechs que conversei nos últimos noventa dias sobre migração, esse foi o maior trava. Mais que código, mais que custo. Cliente final amarrado na regra do provider antigo.

O custo escondido número quatro: risco regulatório de transição

O Banco Central endureceu em 2026. Nos primeiros quatro meses do ano o regulador rejeitou autorização de oito instituições de pagamento, número que já supera as seis rejeições de todo o ano de 2025. Autorizações também caíram: cinco IPs aprovadas no primeiro quadrimestre, contra trinta e cinco em 2025 inteiro.

Tradução: trocar provider hoje exige due diligence regulatória que não exigia há três anos. Compliance da sua empresa tem que aprovar o novo provider, riscos têm que ser remapeados, certas estruturas podem perder licença durante a migração. Adiciona seis a doze semanas no projeto. Adiciona advogados. Adiciona reuniões com auditoria.

O custo escondido número cinco: o roadmap parado

Esse é o custo que ninguém escreve no papel. Migração de BaaS bem feita leva entre seis e nove meses pra fintech de porte médio. Durante esse período, o time de produto está olhando pra refatoração, não pra cliente. Feature nova não sai. Bug fix grande não sai. Concorrente que não está migrando passa por cima.

Em 2026 isso é especialmente caro. O mercado de embedded finance no Brasil deve gerar mais de R$ 24 bilhões em receita adicional este ano segundo levantamentos do setor, principalmente em varejo, marketplaces, telecom, mobilidade e plataformas digitais. Ficar nove meses parado no roadmap nesse momento é mandar growth pro concorrente.

Por que isso só apareceu agora

A primeira geração de BaaS no Brasil foi desenhada pra setup rápido. Integra fácil, ativa em semanas, começa a vender. O modelo funcionou porque o problema era criar fintech. Hoje o problema é diferente. Tem muita fintech criada que precisa evoluir. E aí o BaaS desenhado pra entrar não foi desenhado pra sair.

Isso virou o ponto cego mais caro da indústria. As empresas escolheram provider em 2020-2022 olhando velocidade de integração. Agora elas estão pagando o preço de ter escolhido tecnologia que acoplou em vez de tecnologia que abstraiu. E quando vão trocar, descobrem que a conta de saída é alta porque a porta de entrada foi muito fácil.

A pergunta certa pra fazer hoje

Se sua fintech está escolhendo BaaS agora, não pergunte “quanto custa entrar”. Pergunte “quanto vai custar sair daqui em 24 meses”. Se a resposta é “não sabemos” ou “é complicado”, a decisão arquitetural está errada antes da decisão comercial.

E se sua fintech já está dentro de um provider há mais de um ano e está pensando em sair, a pergunta certa não é “qual provider escolher”. É “como construir a camada de abstração que vai me proteger da próxima troca também”.

Porque vai ter próxima. O mercado brasileiro de embedded finance vai dobrar de tamanho em quatro anos. Vão surgir providers especialistas em verticais novos. Vai mudar regulação, vai mudar contrato, vai mudar oferta. A empresa que ficou amarrada num provider pela arquitetura vai ficar amarrada de novo. A empresa que construiu desacoplamento vai ter opção.

Fechando

Decidir provider de BaaS hoje deixou de ser decisão de procurement. Virou decisão de arquitetura. Quem ainda olha planilha comparativa de tarifa antes de olhar o desenho da abstração está mirando no problema errado.

O barato da integração de hoje é o caro da migração de amanhã. E a fila de empresas brasileiras que vão acordar pra isso nos próximos dois anos vai ser longa.

Mauricio Miguel

Mauricio Miguel

Sales and Marketing Director - Socio fundador

Empreendedor e executivo de tecnologia com experiência internacional em fintechs, software e inovação. Cofundador da Diletta Solutions e da Diletta Pay, foi Assistant Professor na Indiana University e atua na liderança de iniciativas que conectam tecnologia, negócios e transformação digital no mercado financeiro.