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A conta regressiva dos BaaS: 60 provedores vão sumir até dezembro, e a sua fintech pode estar apoiada em um deles

Todos estão acostumados a ouvir: “meu BaaS resolve isso”. Resolve mesmo. Até a manhã em que ele para de resolver.

Não estou falando de instabilidade de API. Estou falando de acordar e descobrir que o provedor de infraestrutura que sustenta o seu produto foi comprado, mudou o pricing no meio do contrato, ou simplesmente não vai existir daqui a alguns meses. Isso deixou de ser hipótese. Virou cronograma.

O número que ninguém no seu time comercial está olhando

A Associação Brasileira de Banking as a Service (ABBAAS) projeta, pela voz do seu diretor executivo Rogério Melfi, que o mercado de BaaS no Brasil vai encolher de mais de 100 provedores para cerca de 40. A consolidação acelera no segundo semestre de 2026 e é empurrada por três forças ao mesmo tempo: competição natural, exigências de capital mínimo do Banco Central e o prazo de adequação regulatória.

Se hoje existem mais de 100 provedores e a projeção é chegar em 40, isso significa que aproximadamente 60 nomes saem do mapa. Alguns por fusão, outros por aquisição, outros porque não conseguem bancar o novo custo de operar. A pergunta que importa não é acadêmica: em qual dos dois grupos está o BaaS que sustenta o seu produto hoje?

Por que agora, e não em 2028

Em 28 de novembro de 2025, o Banco Central e o CMN publicaram a Resolução Conjunta nº 16. Ela disciplina, pela primeira vez de forma direta, a prestação de serviços de Banking as a Service no Brasil. E ela muda o jogo em três pontos que dão trabalho de verdade:

Governança robusta, com KYC, prevenção à lavagem de dinheiro, controles internos e reporte automático ao Banco Central. Segregação de recursos, com contas individualizadas por cliente final e o fim das contas coletivas, o famoso “bolsão”. Requisitos de capital mínimo, que são exatamente o que separa quem tem fôlego para operar de quem não tem.

O prazo para contratos já existentes se adequarem é 31 de dezembro de 2026. Ou seja: falta pouco. E não é um prazo teórico. A partir dessa data, só continua operando quem respeita os critérios da Resolução. Isso pressiona fusões e aquisições justamente no segundo semestre, porque quem não consegue se adequar sozinho vira alvo de compra ou fecha a porta.

Traduzindo para quem toca o negócio: o custo de ser um BaaS acabou de subir de forma estrutural. E custo estrutural mais alto, em qualquer setor, sempre significa menos players e mais concentração.

Não é um problema só brasileiro

A consolidação de BaaS é um movimento global e já está em curso.

O Treezor, um dos principais BaaS europeus, foi absorvido pelo grupo Société Générale. Nos Estados Unidos, a Green Dot anunciou no fim de 2025 uma cisão que separou o banco regulado das operações de fintech, com a Green Dot Bank indo para um comprador e o restante para outro. A Fiserv comprou capacidades de compliance e de gestão de depósitos para reforçar o que os bancos patrocinadores exigem. E há uma fila de bancos comprando fintechs para internalizar o BaaS: Coastal Community Bank e GreenFi, First Carolina e BM Technologies, Capital One e capacidades da Brex, Fifth Third e Rize Money.

O padrão é o mesmo em toda parte. Infraestrutura financeira está deixando de ser um mercado pulverizado de dezenas de fornecedores e virando um oligopólio de poucos nomes grandes, muitos deles com um banco tradicional por trás. Isso pode ser bom para estabilidade sistêmica. Mas para a fintech que construiu tudo em cima de um único provedor, significa uma coisa só: menos opções e menos poder de barganha exatamente quando você mais precisa deles.

O medo real não é o BaaS sumir. É você não ter para onde ir

O risco não é o seu provedor ser comprado. Aquisição, no melhor cenário, é até boa notícia: significa mais capital, mais robustez, mais chance de sobreviver à Resolução 16.

O risco é você estar single-threaded. Depender de um único BaaS, com a sua lógica de negócio amarrada às particularidades daquele fornecedor, sem um plano B testado. Nesse cenário, qualquer mexida do provedor vira uma crise sua:

Ele muda o pricing? Você engole, porque migrar é um projeto de meses. Ele é comprado e o novo dono descontinua a sua linha de produto? Você corre atrás de um substituto no susto. Ele não se adequa à Resolução e sai do mercado? Você tem semanas, não meses, para reconstruir a espinha dorsal do seu produto. E migração de infraestrutura financeira feita no susto é onde nascem os incidentes de compliance, os vazamentos de dado e as quedas de receita.

O comercial que fecha o contrato com o BaaS quase nunca conversa com o engenheiro que vai ter que desmontar tudo se der errado. Essa desconexão é o que transforma um risco de fornecedor em um risco existencial.

O que realmente te protege: parar de tratar o BaaS como o seu core

A saída não é escolher o BaaS “certo”. Não existe BaaS à prova de consolidação, e mesmo o mais sólido pode mudar de dono ou de preço. A saída é arquitetural: colocar uma camada de orquestração acima do BaaS, para que o provedor deixe de ser o seu core e passe a ser o que ele sempre deveria ter sido, um fornecedor substituível.

É isso que fazemos com o Coreflow. Ele fica acima da infraestrutura bancária, não é outro BaaS. A sua lógica de conta, pagamento, reconciliação e regra de negócio vive na camada de orquestração, e o BaaS por baixo vira um plugue. Quando o provedor muda de preço, você negocia de verdade, porque tem para onde ir. Quando ele é comprado, você não perde o sono. Quando um segundo provedor faz mais sentido para um produto ou uma praça específica, você pluga os dois e roteia por caso, sem reescrever o produto.

Não é sobre desconfiar do seu BaaS. É sobre não entregar a ele a única chave do seu negócio.

O que fazer nos próximos 90 dias

O prazo de 31 de dezembro é o gatilho da consolidação, então o segundo semestre é a janela para se mexer. Três perguntas que todo fundador e todo CTO de fintech deveriam responder por escrito antes do fim do ano:

Primeiro, o meu provedor de BaaS está confortavelmente dentro dos 40 que vão sobreviver, ou eu não faço ideia? Se você não sabe, essa é a conversa mais importante que você vai ter esse trimestre.

Segundo, se eu precisasse trocar de BaaS em 60 dias, o que quebraria? Se a resposta for “tudo”, você não tem um fornecedor, você tem uma dependência.

Terceiro, a minha lógica de negócio está no meu produto ou está espalhada dentro do provedor? Porque o que está dentro do provedor vai embora junto com ele.

A consolidação dos BaaS não é uma ameaça distante. É uma conta regressiva que já começou, com data marcada no calendário do Banco Central. Dá para chegar em dezembro como quem tem opção, ou como quem torce para o fornecedor não mexer em nada. Eu prefiro construir para o primeiro cenário. E é essa conversa que a gente quer ter com quem está construindo fintech de verdade no Brasil.

Se você quer entender como fica a sua arquitetura quando o BaaS deixa de ser o seu ponto único de falha, fala com a gente. Essa é a conta que vale a pena fazer antes do prazo, não depois.

Mauricio Miguel

Mauricio Miguel

Sales and Marketing Director - Socio fundador

Empreendedor e executivo de tecnologia com experiência internacional em fintechs, software e inovação. Cofundador da Diletta Solutions e da Diletta Pay, foi Assistant Professor na Indiana University e atua na liderança de iniciativas que conectam tecnologia, negócios e transformação digital no mercado financeiro.